...de ler o livro "O 11° Mandamento" é uma leitura densa, por vezes enfadonha para leigos como eu na área médica, a descrição de procedimentos cirúrgicos e anatomia humana deu-me essa sensação.
Em contrapartida, a descrição da Etiópia dos anos 60 e 70 não é muito diferente da que eu conheço hoje aqui na RD do Congo. Em alguns trechos pude montar em minha cabeça o cenário, visualizar a arquitetura, sentir revolta, medo e tristeza. O livro tem seus momentos de sensualidade, barbárie, amor, compaixão e fé. Consegue despertar várias sensações no leitor. Gostei.
Nas aulas de Francês temos nos aprofundado um pouco na história local do Congo através da vivência do nosso professor que é congolês. Percebemos a mágoa que ele têm dos belgas, das autoridades, do país que aprisiona seu povo na fome e na pobreza. Nossa região é rica em minério, boa parte da mão de obra especializada (para não dizer toda) é de expatriados. Da terra não sai alimento, não há tecnologia e nem sinal de que isso possa acontecer.
Para o povo fica emprego em áreas menos especializadas, o asfalto feito pela companhia, o hospital e outros benefícios. Mas a barriga de boa parte da população continua roncando, não há um dia eu que eu saia e não passe por um funeral, em sua maioria crianças.
Só Deus para ter piedade, porque se depender dos homens de pouca fé o futuro de alguns países da África continuará sendo o passado e o presente: fome e guerra civil mesclado a beleza natural e ao solo rico em minério. Noutro dia li no blog "Navegante do Infinito" da Astrid, a história da psicóloga brasileira Debora Noal (entrevista completa AQUI). Ela é um daqueles seres para o qual não achamos explicação, uma representação atual para o que talvez tenha sido os personagens do livro, Gosh e Hema.
Minha vida é 'bolinho' se comparada a tantas outras. O lugar em que vivemos não é dos mais fáceis, mas também tá longe de ser esse conhecido pela Débora. Ambas estamos nessa por vontade própria, cada uma escrevendo sua história. A minha registrada em forma de blog.
Se ela muda vidas humanas, nós mudamos a nossa, da nossa família e também um pouco a do nosso professor, da nossa secretária do Lar. Emprego para o primeiro, comida para a segunda. Pequenas contribuições, além das compras semanais nos mercados, na feira, no posto de combustível. Os trabalhos voluntários ficaram na Zâmbia, aqui ainda não me animei. Está completando três anos que marido trabalha aqui e ainda tenho receio. Não me adaptei por completo e continuo trancafiada em nossa redoma. Não sei se essa sensação de desconforto passará, a história de violência no Congo é recente e sinto-me aprisionada pelo medo. Penso que poderia fazer mais, mas não tenho vontade. Não me sinto pronta, sem falar o idioma que dificulta ainda mais as relações. Ainda não chegou o momento de vivenciar a realidade local e francamente não sei se um dia chegará.

Minha fiel companhia nesses dias de leitura reflexiva foi a nossa Espresso/Cappuccino coffee machine adquirida num mercado local por U$D 190,00 que apresento hoje a vocês. Pequenas futilidades que deixam meu dia mais agradável.

A próxima leitura será leve, VIPs por Mariana Caltabiano e o cafezinho certamente estará do lado.
Beijocas, boa sexta-feira, bom início do final de semana, dia dos namorados...etc.
Você relata e vive a realidade deste povo tão sofrido e eu vivo e observo de cá da Bélgica e sua burguesia.É muito triste esta desigualdade social.Interessante como muda as vertentes,por cá povo de barriga cheia,tudo em fartura e sofre de uma grande mal que é DEPRESSÃO,e este é meu trabalho social de todos os dias tentar despertar esta felicidade aos que convivo.
ResponderExcluirAdoro esta frase de Quintana: faça o que for necessário para ser feliz. Mas não se esqueça que a felicidade é um sentimento simples, você pode encontrá-la e deixá-la ir embora por não perceber sua simplicidade.
lindo final de semana amiga,bjkas
Pois é Patrícia, são mundos completamente diferentes. Muitos belgas conhecem bem a RD do Congo, ficaram ricos aqui, enquanto pouquíssimos congoleses tiveram a chance de fazer esse intercâmbio, de conhecer o país que o colonizou. DepressãoXfome...RiquezaXpobreza...mundos distintos. Beijocas queridona, feliz dia dos Namorados.
ResponderExcluirA África é ainda o continente em que a emergência em relação a fome é maior: 40 milhões de pessoas estão à beira da morte por subnutrição. São números impensáveis de uma catástrofe, às vezes, gerada pela seca, mas também pelas guerras e guerrilhas internas que causam devastações irrecuperáveis, deslocamentos de populações e abandono de lavouras; do descaso dos governos locais, mais interessados em ganhar sobre a desgraça. À calamidade da fome, associa-se também a epidemia da Aids.
ResponderExcluirE o mundo continua indiferente a dor do continente africano.
O mundo todo está acompanhando com atenção a reestruturação do Japão no pós-tsunami. Também estão de olho na ação de tropas militares ocidentais na Líbia, que enfrenta uma guerra civil. Também acompanham os violentos protestos que sacodem o mundo árabe, com destaque para o Bahrein e Iemen. Isso sem falar na passagem de Barack Obama pelo Brasil, que rendeu horas e horas nos canais de TV no mundo a fora. Mas será que ninguém notou que tem algo bem sério ocorrendo na Costa do Marfim? Aposto que muitos que estão lendo isso agora não sabem, mas tudo bem, isso é um fato. Ninguém liga para a África.
Uma das regiões mais importantes para a história da humanidade (afinal surgiu lá o primeiro ser humano).
Continuando com o exemplo da Costa do Marfim:
Mas porque as potências não ajudam o país? Simples, a Costa do Marfim[bb] é um país pobre e com muitas divisões étnicas. De relevância internacional, ostenta o título de maior produtora de cacau do mundo. E não dá para comparar o cacau com o petróleo do Oriente Médio ou com a rica economia japonesa. O país será deixado de lado pela comunidade internacional e o mundo vai fechar os olhos até que milhares de vidas sejam ceifadas. É sempre assim que funciona.
Bjs.
Cafezinho é tudo de bom, ainda mais nos dias mais fresquinhos! Adorei a máquina de vocês :-)
ResponderExcluirQuanto a Africa, nao é mole :-( Numa aula de ética que tive no mestrado em Maastricht, vimos o filme Darwin's Nightmare, que gerou muita discussao, principalmente sobre a relacao Europa/África.
'http://en.wikipedia.org/wiki/Darwin%27s_Nightmare
Nao é mole mesmo :-(
Beijocas, e bom dia dos namorados pra vocês tbm :-D
Angie
Eu não diria que o mundo está indiferente Madame...as cifras enviadas são estratosféricas, mas elas não chegam. A corrupção é imensa, descarada e muito, muito pior que no Brasil. A fome é calamitosa, mas o mais deplorável em minha opinião, não é o descaso do mundo para com o Continente e sim o descaso das autoridades locais com os seus. Essa é mais grave. Observa-se que a maioria das guerras atuais são por causa do poder, são homens há duas, três décadas a frente dos governos que são derrotados nas urnas e que simplesmente se negam a sair do cargo. Instalam o caos sem o menor pudor. Tem horas que me parece uma guerra perdida. Vejo aviões da ONU descer e subir no aeroporto local, mas até onde eles podem agir? O quê fazer quando a guerra é das autoridades contra seu próprio povo?! Isso aqui é um barril de pólvora prestes a explodir quando menos se espera e talvez por causa disso sinto-me tão limitada. A região que estamos é relativamente segura, mas ainda assim há que ter cuidado. Sua opinião é sempre muito importante, sei que uma causa que a interessa e a mim também. Beijocas!
ResponderExcluirAngie...A realidade daí é completamente diferente da que vivenciamos aqui. E o tema África sempre dispertará discussões favoráveis e contrárias. Vou ver se encontro o documentário. Beijocas!
ResponderExcluirUm beijo muito grande Taia...
ResponderExcluirMarília Marques
Taia, vc é superbe! Adorei, magistral sua aula de quem vê e sabe, pq vivencia. Beijo enorme!
ResponderExcluirFiquei morrendo de vontade de ler um bom livro e tomar um capuccino... coisa que não faço desde quue a Sophia nasceu!
ResponderExcluirTem sorteio lá no blog! Participe!
Bom final de semana!
Maura
Bella, está África violenta meu esposo conheceu de perto... Sempre digo para ele - Vc é um sobrevivente!
ResponderExcluirUm ótimo fim de semana p/ vcs!
Beijosssssssssss
Por várias vezes, lí seus relatos da situação miserável em que vive a maioria das pessoas no Congo e o questionamento de porque vc não fazia alguma coisa era uma constante. Sei que dizer isso, não me parece muito educado mas é sincero e se digo agora é justamente para te pedir que me perdoe pelo julgamneto porque diante do que vc hj partilhou aqui não há mais espaço para que ele aconteça.
ResponderExcluirSó me resta então desejar à vc dias melhores e sorte, sempre.
b'jo grande.
Marília minha flor, quanto tempo...beijocas e bom final de semana.
ResponderExcluirGlorinha, não dá para ter idéia da 'real' se você não vivencia. Temos idéia, ouvimos falar, estudamos, mas só na hora do 'pega-pra-capá' é que nos damos conta do quanto isso aqui é uma loucura. As aulas de francês têm expandido meus horizontes, vou conhecendo novas nuances da situação para decidir até que ponto acho pertinente envolver-me ou não. Isso aqui é tão década de 70/80...é como se eu vivesse no passado. Mas vamos que vamos. Se eu não puder ajudar, certamente não atrapalharei. Beijocas!
ResponderExcluirMaura, seu tempo agora pertence a Sophia rsrsrsrs. Mas é tão bom poder doar esse tempo para eles. Curta porque passa rápido. Vou lá depois, beijocas!
ResponderExcluirPois é Bia, isso é uma loucura. Por sorte e muito trabalho alguns países conseguiram sair desse caos. Mas aqui ainda há um longo caminho a ser percorrido. Beijocas!
ResponderExcluirKell, eu acredito que para que eu faça a diferença na vida das pessoas eu tenho primeiro que ser a diferença na vida da minha família. Se eu faltar, eles irão sofrer. Ainda tenho três filhos e nossos pais que contam conosco. Emocionalmente e financeiramente. Então busco primeiramente ser uma boa mãe, boa esposa, boa filha, boa irmã e boa amiga. Conseguindo isso, estarei pronta para novos desafios. Ontem minha empregada levou arroz cozido e bolo, hoje, laranjas. Sei que ontem e hoje as crianças dela comeram algo e sei que representei de algum modo 'a diferença' ainda que pequena, mas sei que essa minha ajuda chegou de fato a quem deveria. Nosso professor de francês, através das aulas que dá para mim, meu marido e alguns colegas comprou nesse mês uma geladeira no qual ele coloca refrigerante e outras coisas para serem vendidas e assim complementar a renda familiar. Ou seja, mais uma vez, ainda que de forma tímida, eu e os outros fizemos a diferente na vida de uma família. Através dessas aulas meus horizontes têm se ampliado, preciso pisar em terra firme. Pode parecer egoísmo, mas não me disponho a entrar em algo que desconheço e que possa representar risco para minha integridade física. Talvez isso mude daqui a algum tempo, mas por enquanto não me sinto pronta. Beijocas!
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