...de ler hoje os dois primeiros capítulos do livro "Guia politicamente incorreto da História do Brasil" escrito por Leandro Narloch.
Tinha interesse especial por dois capítulos: Índios pelo fato de ter trabalhado por três anos em meio a eles e Negros por viver há mais de quatro anos no Continente Mãe.
Não vou entrar no mérito histórico da coisa, mas vou falar de minhas impressões baseadas em minha vivência "in loco" na Zâmbia e na RD do Congo dentro do contexto de revisão histórica proposta pelo livro.

Gabriela e Natacha no orfanato Sara Rose com a Nancy, Juliet e Mpalo - 2009

Gabriela e minha sogra preparando sopa para as crianças - 2009

Minha sogra e cunhado com Mpalo no colo - 2009

Natacha, marido e eu na travessia de Zâmbia para Botswana - 2009
Em casa temos um caso com os dois grupos étnicos, de minha parte indígena e da parte do marido negra. Isso fica evidente nos traços familiares de ambos.
Apesar de eu não me autodenominar índia, o marido o faz com orgulho: Sou negro.
Portanto, vir para a África foi motivo de alegria para nós. E alguns mitos caíram por terra diante da realidade do dia a dia.
Aqui somos considerados brancos e como tal somos diferentes e recebemos tratamento diferenciado.
Não estou aqui para defender ou julgar ninguém, nosso país é um país preconceituoso e ponto. Fomos um país escravagista e ponto. Temos a cara de pau de dizermos que não existe preconceito no país e ponto. Dizemos não ser preconceituosos, mas lidamos mal com as diferenças e ponto.
Enfim essa é uma discussão que não tem fim, é explosiva e por vezes repulsiva.
Pisamos no Continente em 2006, afoitos, sedentos por informações, queríamos beber direto da fonte. Chegamos a Zâmbia, primeiro os dois (marido e eu) depois trouxemos os filhotes.
A Zâmbia é um país relativamente pacífico, referência para o Continente. Teve colonização inglesa e deles mantiveram como herança o modo de viver. Da língua à mão inglesa, do chá ao vestuário.
Quando falam em inglês, falam formal e pausadamente. Quando falam em Bemba (língua da região em que vivíamos) falam alto e com gestuais. Ambas as línguas convivem em harmonia dentro do mesmo ser, isso quando não há mais de uma já que no país fala-se mais de oitenta línguas e dialetos. Cinco línguas bantas são usadas oficialmente na educação e na administração zambiana. Meu antigo professor de inglês fala com fluência: inglês, francês, italiano, alemão e mais dez línguas africanas. Um homem culto que estudou e viveu por anos na Europa, mas que preferiu voltar às suas raízes. Quando fui embora ele estava se dedicando ao estudo do Espanhol. E assim é uma parte da população, pessoas ricas que mandam seus filhos estudarem na Europa e pessoas que trabalham duro e fazem com que seus filhos cursem o tão sonhado ensino superior. Um colega de trabalho responsável pelos documentos dos expatriados tinha diversos filhos: médicos, engenheiros e advogados. Nossa ajudante do lar (Maggie) mantinha com muita dificuldade a filha na capital estudando Ciências Sociais.
Até aí tudo é muito parecido com o que nos temos no Brasil. Meus sogros que não tiveram oportunidade de fazer o terceiro grau fizeram com que os quatro filhos estudassem, todos são graduados e pós-graduados.
Mas o que assistíamos e continuamos a assistir é um "espetáculo de horrores" no qual eles são atores e diretores. Convivemos com a mansidão deles para com os brancos e com a depreciação dos seus. Os quem tem maiores poderes, minimamente que seja, destratam os seus com veemência.

Marido e sua antiga equipe de trabalho na RD do Congo
Essa atitude atemporal é bem descrita na citação do livro e nos remete ao que vivenciamos aqui. [...] obedientes a um que se chama o Ganga Zumba, que quer dizer Senhor Grande; a este têm por seu rei e senhor todos os mais, assim naturais dos Palmares como vindos de fora; tem palácio, casas de sua família, é assistido de guardas e oficiais que costumam ter as casas reais. É tratado com todos os respeitos de rei e com todas as honras de senhor. Os que chegam à sua presença põem os joelhos no chão e batem palmas das mãos em sinal de reconhecimento e protestação de sua excelência; falam-lhe "majestade", obedecem-lhe por admiração. Flávio dos Santos Gomes, Palmares, Contexto, 2005, página 104.
Trazendo isso para o real, estávamos marido, eu e um casal de amigos fazendo um lanche no quintal quando a Maggie veio falar algo comigo, quando ela viu meu marido que na época já trabalhava no Congo e ia para casa uma vez por mês ela se ajoelhou e baixou a cabeça para dar-lhe as boas vindas. Aquilo foi como um soco no estômago para mim. Meu marido pediu que ela se levantasse. Depois expliquei para ela em particular que aquilo não era necessário e muito menos correto. Ela me disse que essa atitude é comum diante dos patrões, sejam eles brancos ou negros. Disse-me ainda que os salários pagos por patrões brancos eram quase o dobro do que era pago por patrões negros.
Natacha despedindo-se dos amigos na Zâmbia
Noutros episódios, Natacha e o Raul chegavam em casa com relatos de maus tratos dos professores com os alunos zambianos. Desde jogar cadernos no chão a bofetões. Eles se impuseram naturalmente, Raul pelo tamanho, logo se pos a jogar e abraçar os outros garotos tornando-se um deles. Como ele tem a pele escura passava facilmente por indiano e isso facilitou a inserção dele no grupo.
Já a Natacha muito branca, teve mais dificuldade. Enquanto algumas meninas amavam o cabelo dela, outras a tratavam mal e com desprezo.
Eles estudavam na escola da empresa com mais de 1300 crianças onde praticamente 100% eram negros. Podíamos tê-los matriculado num colégio inglês onde essa diferença era menor. Mas não o fizemos, achávamos importante a convivência deles numa escola africana que está em busca da internacionalização, mas ainda assim africana. Onde é comum falar em Bemba ainda que proibido. Inclusive alguns professores ministravam a aula assim.
Abraço afetuoso em sua melhor amiga Nicole
A Natacha era por assim dizer a única criança branca da escola, sofreu com colegas e professores, mas fez-se ser respeitada e saiu de lá querida tanto pelos docentes quanto pelos discentes.
Lindas
Isso fez total diferença para ambos na visão de mundo, tanto o Raul quanto a Natacha são amplamente elogiados por seus professores da área de humanas. Posso dizer sem falsa modéstia que a Natacha foi a responsável pela inserção de uma aluna com dificuldades físicas na atual escola dela em Minas. Motivo de muito orgulho para nós.
Marido, apesar da pele escura não pode andar na carroceria de carros abertos, porque ele é "branco" e isso traria problemas para o motorista que carrega sem problema nenhum vários dos congoleses na carroceria.
Sem mais delongas, na última entrada nossa no país vieram um grupo de trabalhadores africanos (não sei de onde), o vôo de Johannesburg para Kolwezi é da empresa, portanto só vêm funcionários e familiares.
Ou seja, independente de cargos todos são iguais. Mas para imigração não é assim, eles pegam com certa educação nossos passaportes e quando chegam nos "seus" eles praticamente arrancam os passaportes das mãos, falam alto e comentem grosserias.
Eu não consigo entender onde está a lógica da coisa.
Fiquei matutando comigo mesma, talvez o autor do livro tenha razão em muitas das discussões propostas, já que hoje ainda presencio atitudes do gênero.
Dentre elas a de que: Os nobres africanos dependiam da venda de escravos para manter seu poder. Vendendo gente, eles obtinham armas. Garantiam assim a expansão do território e o domínio das terras já conquistadas. Sem a troca de escravos por armas, tinham a soberania do território e a própria cabeça ameaçadas. Leandro Narloch, Guia politicamente incorreto da história do Brasil, Leya, 2009, páginas 91 e 92.
Talvez tenha mudado a "moeda de troca", mas os africanos continuam se subjugando.
Não estou aqui para posar de boa moça, nem para contestar ninguém, muito menos para ofender. Talvez este seja mais um motivo de reflexão mais para mim do que para vocês já que quem convive com essa situação sou eu.
Eu sou preta
Trago a luz que vem da noite
Todos os meus santos
Também podem lhe ajudar
Basta olhar pra mim pra ver
Por que é que a lua brilha
Basta olhar pra mim pra ver
Que eu sou preta da Bahia
Eu tenho a vida no peito das cores vivas
No meu sangue o dendê se misturou
Tenho o fogo do suor dos andantes
E a paciência do melhor caçador
Eu sou preta
Vou de encontro à alegria
Minha fantasia é mostrar o que eu sou
Vim de Pirajá cantando pra Oxalá
Pra mostrar a cor do alá de Salvador
Eu sou preta, mãe da noite, irmã do dia
Sou do Cortejo Afro encantador
Filho de Ilê Ayê, Ghandi Mestre Pastinha meu amor
Vou misturar o que Deus não misturou
Um abraço negro
Um sorriso negro
Traz. felicidade
Negro sem emprego
Fica sem sossego
Negro é a raiz da liberdade
Negro é uma cor de respeito
Negro é inspiração
Negro é silêncio, é luto
Negro é a solidão
Negro que já foi escravo
Negro é a voz da verdade
Negro é silêncio é a luta.
Negro também é saudade
Começou com a tal escravidão.
Onde todo o sacrifício era nas costas do negão
Hoje ta tudo mudado e o negro ta ligado.
Atrás de um futuro melhor considerado.
Respeito amor dignidade atitude.
Trabalho dinheiro cidadania e saúde.
E para o nosso país integração.
E para o nosso povo paz e união.
Preta.
Amanhã Vera e Renato chegam das férias no Brasil, portanto devo dar as caras com um novo post somente na segunda-feira. Vou me dedicar a fazer um almoço gostoso para esperá-los.
Beijocas e boa quinta-feira.
